poemas

RECEITA PARA MACERAR OSSOS E ARREMETER CONTRA CÉLULAS EM ALVOROÇO


Convoco os homens para o apostolado da impiedade
É urgente o aprisionamento dos bichos
Aferrolhem os lobos-guarás
Trancafiem os tamanduás
Enjaulem os gatos
Prendam os cães
Dobermans, shih tzus, filas, pinschers
Persas, siameses, somalis, angorás, ragdolls
Engaiolem as capivaras
Acorrentem as sariemas
Amarrem os animais

Precisamos extinguir essa movimentação endêmica, essa dinâmica anarquista
Pretendamos um mundo inanimado!
Uma natureza morta em um quadro de respiração e desgosto

No km 404 da BR 365 eu vi um gato
Um gato nem sei se gato
Sem raça definida
Sem costelas definidas
Sem focinho definido
Sem orelhas definidas
Um pandemônio de músculos, sangue, pneu, asfalto e calor
Como se fosse uma coisa feia renunciando a outra coisa feia
Como se fosse uma coisa nojenta evadindo-se de outra coisa nojenta
Uma guimba de rabo desfigurada acena para mim
Estaciono: o carro se cala no acostamento
O homicida à combustão interna afronta a epidemia liquefeita

Os gatos e seus saltos gorados
Os tatus e suas couraças esmigalhadas
Patas, cabeças, bacias, pescoços – tudo pasta e arrebatamento
A imobilidade e seu relincho teimoso de vítima

Avante, avante, avante!
Convoco os homens para o apostolado da impiedade
É urgente o aprisionamento dos bichos.

RECEITA PARA ACOMPANHAR A PROCISSÃO DE SOLUÇOS


Em Minas um boi cacareja a sua desconfiança de canário
Em Minas um pito estremece na boca despetalada do velho
(que nem supõe mais como ou quando morrer)
Em Minas o sol se melindra com a fecundidade esverdeada das coisas
O trem apara a preguiça das serras
(enigmático como tudo se torna trem em Minas)
Um compêndio de curas nas rezas calejadas das mulheres
As tripas das paredes escapando da erosão dos rebocos
(Minas é um povo caducando nas horas desabitadas)
Já é impossível pescar esta Minas em Minas
Libertar esta Minas de Minas
Ou desonrar o ventre que traduziu em desassossego essa rigidez mineral
Um galo esporeia, com sua covardia amolada, os chifres da tarde
Enquanto uma rede nina uma selvageria de substratos:
Há um torrão de Minas engastalhado na minha garganta.

 

 

RECEITA PARA ADESTRAR QUINTAIS


Abafar o estampido das teclas
a ordenha das hierarquias
Mangas e abacates não requisitam um alvará para rebentar
amadurecer
e alimentar o pedinte que arrasta um feixe de ninharias
Pelo asfalto latejante da desgraça:
Há ainda uma seiva a ser taxada
uma célula, um nada funcional
Entretanto:
capins e gramas não compreendem escrituras
e verdecem gratuitamente o cinza das coisas
Em tudo avistar porteiras e cadeados.