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Um dos livros mais emblemáticos da literatura contemporânea (e vou falar sobre ele em breve, no canal Acontece nos Livros, na seção "clássicos") se chama "Capão pecado" e foi escrito por esse sujeito aí da foto, Ferréz. Ferréz, além de grande escritor, faz diferença em todo lugar em que fala. E ele falou do meu "usufruto de demônios" no canal dele, o "Avesso". Muito obrigado, meu caro!
 

Sempre também meu agradecimento ao querido Gabriel Morais de Medeirtos, que editou essa belezura e que escreveu um puta posfácio.

 

Não deixem de adquirir, de ler, de apoiar a literatura brasileira.

 

Link para o vídeo: Avesso #43

Postfácio

 

 

 

Já nos meses iniciais da pandemia, foi notável uma tentativa de esgotamento simbólico da experiência traumática. Da poesia à análise ensaística, uma série de diagnósticos, abordagens e compilações revelou um esforçou para, do desastre brasileiro, extrair-se uma percepção coletiva, o consenso de uma definição, de uma explicação possível do que vivíamos. Com pressa – a pressa é apenas uma estratégia literária, entre tantas outras – antologias, coletâneas, e-books, posts e enxurradas de horas-live buscaram captar, expor e compartilhar, muitas vezes com intenções totalizantes (com mais ou menos eficácia), o que era estar no Brasil, durante a peste. Houve, assim, uma impressionante inflação de signos convergentes à covid. Um pôr-em-marcha de um maquinário de representação cuja finalidade fantasmática era definir um espírito do tempo. Finalidade fantasmática: como testemunhar efetivamente o horror, o negacionismo, o desgaste devido ao isolamento social (possível somente a uns poucos privilegiados) e a perplexidade ante o cinismo fascista – de que o avatar era e é o atual presidente, 82 obviamente –, estimulador da carnificina, debochador dos mortos? Conforme os meses foram passando, e o vulto dos cadáveres seguia se encorpando incontrolavelmente, ou melhor, num processo de descontrole gerido, vimos que o silenciamento tomou o lugar da urgência, nos meios literários. Não se veem mais, ao que parece, tantas publicações temáticas sobre o morticínio, dois anos depois. O ímpeto de verbalizar o choque completamente, e o quanto antes, deflacionou, arrefeceu. É que a rosa, bem vês, passou de moda, como disse o poeta.

 

Usufruto de demônios, série de narrativas curtas que o escritor Whisner Fraga lança agora, pela Ofícios Terrestres Edições, está na contramão de algumas das agências que identifico acima. Ou seja, possui outras estratégias, ou, se quisermos, opostas estratégias. O espectro pandêmico se aglutina nos três primeiros contos da obra, compondo uma espécie de índice-fantasma, de enunciação temática, de cabeçalho da hecatombe, de antessala do inferno: pandemia, Brasil, dias de hoje. Dessa maneira, o testemunho do trauma – e o compromisso com o ato de narrá-lo – já se evidenciam, logo de início. Ou seja: é um livro que insiste, que continua a insistir no dizer do colapso, persiste em manter em evidência aquilo que ainda não passou: seja a devastação biológica, sejam suas consequências econômicas, subjetivas e sociais. Para o autor, a praga, portanto, não é um slogan efêmero, um tema já discutido, uma pauta já ticada, um trending topic que perdeu, de súbito, apelo, com o passar dos meses (e que perdia apelo, paradoxalmente, conforme se intensificava o caos sanitário). Antes, 83 é uma convocação contínua à reflexão, e uma reconvocação à lida com campos de sentido e territórios de crise abandonados com a mesma velocidade com que foram ocupados, no mundo dos símbolos.

 

Nessa direção, é importante sublinhar que Usufruto é um livro de 2022, publicado em maio de 22. Sua estratégia, então, terá sido a de uma gestação lenta. A de uma reflexão contínua, que exige um dizer gradativo (e não apressado, afobado ou atabalhoado) sobre um tempo que não será compreendido de todo, e o qual não será de acuradamente transmissível, pela literatura, à coletividade, enquanto experiência. Pois não há e não haverá como pôr em palavras todo o sofrimento que a covid, o fascismo, o neoliberalismo e as empresas privadas – lembremos que os vetores iniciais da pandemia foram laboratórios particulares e companhias aéreas – têm causado. Teremos, apenas, fragmentos, dicções, relances do que nos aconteceu. Whisner Fraga tem, disso, consciência, e por isso compõe um livro de fragmentos, de pequenas narrativas, de estilhaços de prosas poéticas, de paródias de minicontos, de vazios. O dizer-fragmento é mais uma de suas estratégias. Como toda boa literatura, Usufruto de demônios não se propõe, por isso, a representar o todo pandêmico, a totalidade do Brasil zero vinte, zero vinte e um, zero vinte e dois. O todo é irrepresentável, é óbvio; sobram, somente, pedaços e vestígios. E é com eles que Fraga trabalha, de forma não fantasmática, mas convincente. 1. A persistência da pandemia enquanto assunto literário cabeça-de-chave; 2. a gestação não-apressada de um artefato literário que aborde tal questão; 3. a fragmentação, e não a 84 pretensão de totalidade. Considero estas as três estratégias de Whisner Fraga para uma literatura sobre os tempos pandêmicos, mais interessante do que muitas das que tenho visto. Porque Whisner busca um dos dizeres da pandemia. Não tem a pretensão, a presunção, de alcançar o dizer.

 

No entanto, A epidemia de covid durante um governo fascista-neoliberal não é o único território dos fragmentos de Usufruto de demônios. A desesperança da velhice, os almoços reacionários de domingo; a arquitetura antimendigo e os bitcoins; a truculência policial no vão do masp e uns assaltos intermináveis, numa temporalidade de novela televisiva, de eterno retorno infernal do sempre igual; o médico sádico, a doula provavelmente desempregada, ou subempregada; o digital influencer e o morador de rua negro, crispado ao chão, ao lado da banca de revistas; as sacolas biodegradáveis num planeta em desertificação e o pé de lichieira, evocação de afetos; as demissões por justa-causa em massa, ou o “benefício” das demissões regulares; as interlocuções com helena, o diálogo com uma criança, com um pequeno humano, a quem se deve transmitir o testemunho da angústia, e o panorama desolado, cheio de medo, de um mundo que reitera, de forma avassaladora, o espetáculo de seu próprio fim; a cosmologia do universo, em clave paródica, e a cosmologia do ódio brasileiro contemporâneo – a copa de 2014, em que os afetos futebolísticos trocam de lugar com os afetos políticos, religiosamente, e fundam o Brasil do golpe de 2016. Este Brasil que incha, pornograficamente, de 2018 em diante. Todas essas questões estão neste livro.

 

Há muitas linhas de força em Usufruto de demônios, de Whisner Fraga, para além do específico temático que orbita a questão pandêmica. Para lermos o livro à sua própria luz, na frequência de sua tristeza e de sua ironia, de sua poética e de sua relevância, de sua multiplicidade e inteligência, comecemos pelo título. Temos em mãos um tratado demonológico sobre o capital, sobre o mundo como depósito de mercadorias, profundamente doente. Por outro lado, nas entrelinhas deste mesmo tratado cintilam, em letra miúda, guias práticos de guerrilha, risos e encantamentos, exorcismos, comicidades, lirismos, e fundamentalmente, a concepção da literatura como uma cifrada (ou seja, não-panfletária, e por isso, sempre sedutora) estratégia de sobrevivência.

 

Gabriel Morais Medeiros

embuste

 

a crítica estampada no badalado jornal era maledicente, fantasiosa, apócrifa – desde o primeiro livro, resenhistas, filósofos, intelectuais e outros covardes embirraram com o estilo da escritora: atacavam um suposto beletrismo, os entraves de lógica, a racionalidade embiocada em metáforas difíceis, subterfúgios para justificarem a inveja, o ciúme: eles são assim, leem a primeira página, lambiscam resenhas chinfrins e se vendem por essas trivialidades: ela foi se cansando – reconhecimento após a morte?, se nem deus compreende o que há depois do pó e não há como tirar proveito de um sucesso póstumo – apesar dos prêmios, só vendia o hermetismo para amigos condescendentes, mas não era trivial descer para o rés-do-chão, pois a vaidade se queixa, nada como a bajulação, a banheira de hidromassagem, o sexo pago e o vinho português para domesticar um gênio, de forma que sempre era possível se submeter a uma conta mimada por depósitos constantes: a autoajuda não era o fim, a julgar pelas matérias sobre a escritora, estagnadas no costumeiro mau-gosto: literatura é uma questão sexual e, neste quesito, há muita gente ressentida – tornou-se best seller – sentia falta do desafio intelectual e um clichê adequado era algo moroso para ela, os novos calhamaços lhe saqueavam considerável parte do dia, se continuasse assim a estética lhe cobraria uma depressão, o jeito foi resolver o conflito: nas noites de autógrafos, levava uma hora para redigir meia dúzia e dedicatórias, todas legítimas obras-de-arte: insondáveis, líricas, apocalípticas, indecifráveis, jocosas, lascivas, como são as vinganças. 


Do livro Usufruto de demônios, de WhisnerFraga.