Era verão em Ituiutaba, o que significa caminhar, no início da tarde, debaixo da inclemência de um sol raivoso e ao redor de uma sensação térmica de quarenta graus ou mais. Não sei se era madrugada, embora já tenha questionado minha mãe sobre este assunto, no mínimo umas vinte vezes. Ela, paciente, sempre me responde: sim, meu filho, passava um pouco da meia-noite. Ou, ao contrário: não, meu filho, já lhe disse outras vezes, era início de tarde. Confesso que essas mixarias alcançam meu cérebro, mas ele as descarta em seguida.

Neste 17 de outubro de 1971, fui ejetado do útero materno com a desinibição típica das melhores parideiras de Minas Gerais. Ambos nos sentimos aliviados. Eram tempos de ditadura e sei que isso significou longas filas do INPS e logicamente uma corrida de ônibus até o hospital mais próximo, onde uma enfermeira, amiga da família, ajeitara um quarto e um médico recém-formado.

Mudávamo-nos constantemente, o que deve ter contribuído para a formação deste meu espírito cigano, de quem não se apega a cidade nenhuma. Sei que tinha pouco mais de três anos e minha mãe, uma dona-de-casa com o terceiro ano primário incompleto, rabiscava, com um galho encontrado durante uma meia hora de folga, os rudimentos do alfabeto. Meu pai, que àquela época trabalhava em uma empresa de asfaltamento, chegava em casa cansado e só desejava sossego, o que, naturalmente, não excluía o carinho de todos.

Aos cinco anos pedia com desespero que me levassem a alguma escola, o que só foi acontecer um ano mais tarde e desconheço os motivos. Cheguei lá alfabetizado e, como naquela época permitiam, paradoxalmente, algumas liberdades a mais, me levaram para a série seguinte. Não culpo nenhuma professora por meu amor às palavras ou pela devoção aos números, se alguém foi responsável por isso acredito que foi minha mãe. O resto consegui fazer sozinho, com a ajuda de livros.

Ao dez anos me tornei devoto de Machado de Assis, de José de Alencar e de José Lins do Rego. Mais tarde, minhas leituras, sem orientação, aleatórias, tiveram uma queda de qualidade, quando li a coleção Vagalume inteira. Nada que Guimarães Rosa não tivesse resolvido poucos anos depois, com seu Sagarana. Assim, prestei o Vestibulinho para ter acesso à segunda parte do ensino fundamental, que consistia da quinta a oitava série do primeiro grau.

Era uma escola pública polivalente, que oferecia cursos que são conhecidos hoje como integrados. À grade tradicional somavam-se disciplinas de caráter profissional, como marcenaria, horticultura e educação para o lar. Fiquei ali até o primeiro ano do segundo grau, quando me transferiram para um colégio de padres. Tive aulas de teologia com um exorcista, aprendi fundamentos de latim, francês e música e comecei a gostar de cerveja.
Nessa época eu andava na caçamba de uma pick up quando meu pai bateu em outro carro. Pode ser que minha mãe estivesse também no carro na hora em que eu caí pelo assoalho, dando risadas, como se fosse a grande aventura da minha vida. Com a mesma pick up íamos para as chácaras de parentes, onde eu passava o dia escutando pássaros, olhando os bois ruminarem e comendo murici.

Como eu não sabia o que fazer da vida, resolvi cursar Engenharia. Escolhi Mecânica e me graduei alguns anos mais tarde. A indústria e o estresse de um chão de fábrica não eram para mim, de modo que só havia uma solução: a carreira acadêmica. Cursei Mestrado na mesma Universidade Federal de Uberlândia e doutorado na USP. Doutorei-me em 2003 e prestei um concurso para a docência e desde então venho lecionando para jovens e adultos.

Uma equação diferencial me encantava tanto quanto um soneto de Augusto dos Anjos. Mais tarde me envolvi com línguas – queria ler Camus, Kafka, Proust, Hesse, Dostoievski, Borges, Moravia, tudo no original. Como eu me sentia ignorante nas áreas humanas, me matriculei em dois cursos: Letras e Pedagogia. Pobre de mim: saí mais ignorante ainda depois destas novas incursões universidade adentro.

Morei em repúblicas estudantis dos dezessete aos trinta e poucos anos, quando me cansei e aluguei uma casa só para mim. Não me sentia sozinho, mas adotei um gato. Como eu era bobo e metido, dei-lhe o nome de Zagreus, mas com o tempo ele me ensinou como deveria chamá-lo: Bicho. Mais tarde ele me pediu irmãos e vieram Nina e Gorducha.

Há alguns anos conheci minha esposa, com quem tive uma menina linda, que compartilha nosso amor pelos livros. Ela tropeça nas lombadas das obras esparramadas pelo chão e debocha de nossa ingenuidade. Que bobagem guardar tanto objeto!, parece nos dizer enquanto folheia algum capítulo que ainda não compreende. 
Estou há quatorze anos no estado de São Paulo, mas Minas ainda é um torrão engastalhado em minha garganta.

 

Whisner Fraga

 
     
 

| topo |

 


 
     
desenvolvido por tramela web | tramelaweb@gmail.com

2012-2017 © todos os direitos reservados.